Ecologia Urbana

Blog da disciplina de ecologia urbana, do 5º ano da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, docência do Professor Doutor Jacinto Rodrigues

3.2.07

A Água na Paisagem do Séc. XXI - 2ª Parte

Jardins Filtrantes e a Produção Agro-Ecológica

As lagunagens podem ser compósitas: micrófitas e macrófitas, podendo também povoar-se com peixes e patos, constituindo-se um ecosistema mais complexo, mais eficaz e também mais aprazível.
Assim procede-se à integração da produção agro-ecológica com os jardins filtrantes, criando-se uma nova paisagem útil e agradável.
Estes jardins filtrantes, quando utilizados para filtrar águas pluviais e domésticas, são locais de produção agro-ecológica e permitem ainda a existência de um parque de recreio e lazer.
Para uma melhor depuração das águas o solo desempenha um papel fundamental como factor de filtragem. O sistema depurador do solo pode organizar-se a nascente do processo biodepurativo da lagunagem.
As águas usadas domésticas poderão, previamente, sofrer uma filtragem inicial através duma camada natural de argila. Essa camada natural de argila pode estar subterrada por um talude de terra na qual se plantaram choupos ou álamos. As raízes destas árvores são um sorvedouro dos nitratos que possam existir nas águas que escorrem ao longo do leito de argila, em declive, por onde a água vai sendo filtrada primeiro pelo solo de argila e depois pela fitodepuração e biodepuração.
Podem também juntar-se aos choupos os salgueiros que, embora dotados de uma forte capacidade de evapotranspiração (consumindo bastante água), têm contudo uma grande capacidade de absorverem e consumirem azoto e fósforo que, eventualmente, possam estar nas águas residuais e que são prejudiciais à saúde dos homens e dos animais.
A estas macrófitas podem-se juntar muitas outras plantas úteis para a alimentação de animais assim como peixes, conforme o uso das lagunagens e o grau de depuração conseguido nas bacias anteriores.
Essas plantas úteis, para além das fragmitas comunis e dos jacintos de água, podem ser utilizadas na alimentação humana, como por exemplo ervilhas de água, agriões e alfaces de água, logo que se assegure uma boa filtragem tendo em vista a potabilização da água.
Neste processo é importante estabelecer zonas nítidas de separação entre o processo agro-ecológico, em que podem coabitar animais, peixes e plantas e o processo em que se pretende tornar a água potável.
Barreiras e cascatas, constituídas por pedras, argilas e plantas diversas, nomeadamente rizomas, são divisórias porosas do processo de lagunagem que permitem os meios eficazes para a obtenção de água cada vez mais potável.
No percurso deste fluxo hídrico a água é assim filtrada e agitada de modo a ser cada vez mais oxigenada. Podem usar-se cascatas naturais entre os vários declives mas podem também ser usadas “flowforms” que, graças a um design especial, fazem circular a água. Essa água saltita sobre o relevo e os contornos artísticos dessas formas, especialmente concebidas para o efeito revitalizador da água.

Bibliografia essencial
"Le lagunage ecologique", Yves Pietrasanta e Daniel Bondon, Ed. Economica, Paris, 1994;
"L'eau à la maison", Sandrine Cabrit Leclerc, Ed. Terre Vivante, Mens, 2005;
"A la recherche du mystère de l'eau", Hans Kronberger e Siegbert Lattacher, Edt.Uranus,1999;
Refiro também a importância dos contactos tidos com Michel Rossell, no sul de França e de Herbert Dreiseitl, na Alemanha, que trabalhou no projecto IBA do Emscher Park e dirige o Atelier Dreiseitl em Uberlingen.

A Água na Paisagem do Séc. XXI - 1ª Parte

Jardins Filtrantes e Produção Agro-Ecológica

São terríveis as imagens de Luanda sob as chuvas torrenciais que vimos nas notícias da semana passada.
Parecia que um dilúvio fizera submergir o bairro do Cazengo. Gente desesperada tentava salvar os magros recursos das sanzalas.
A trovoada e as grandes bátegas de água, encharcavam a pobre gente dos musseques, arrastando tudo numa impressionante voragem. E durante mais de uma semana as chuvas inundaram casas e as terras ficaram alagadas.
Agora, os charcos pairam por todo o território e os detritos vindos dos esgotos desfeitos tornaram as águas pestilentas. Os mosquitos não tardaram quando o sol voltou, por isso está aí o perigo da malária e das desinterias. É a morte que espreita sobre a cidade.
Que medidas se podem adoptar para que, de um modo simples, se possam prevenir futuras catástrofes deste tipo?
Vamos explicitar, neste texto, algumas reflexões que apontam para processos capazes de contribuir para a melhoria de vida das populações, através de meios ecológicos e sustentáveis.
A paisagem humanizada é um ecosistema natural que se interliga aos sistemas artificiais construídos pelo homem. Urbe e natureza constituem assim uma relação simbiótica originando o actual processo civilizacional em que vivemos. A sociosfera gerou um antagonismo com a biosfera devido ao aparecimento duma tecnosfera que esgota e contamina a natureza. Actualmente a biosfera tem um ritmo de regeneração inferior ao esgotamento e poluição gerados pela tecnosfera, baseada na energia fóssil e materiais não recicláveis.
O metabolismo circular, específico dos processos ecosistémicos e bioregenerativos, foi assim perturbado pelo metabolismo linear desta civilização esbanjadora e contaminante.
Para retomar o metabolismo circular bioregenerativo dos ecosistemas naturais, será necessária uma mudança radical. Teremos de substituir as energias fósseis por energias renováveis e substituir a actual tecnosfera por uma ecotecnosfera reciclável e reutilizável.
Assim, o metabolismo circular no paradigma ecológico deixará de ter lixos para ter nutrientes. Nutrientes orgânicos recicláveis no metabolismo regenerativo da biosfera e nutrientes técnicos, reutilizáveis na nova ecotécnica civilizacional baseada em materiais biodegradáveis e energias renováveis.
É neste contexto global que teremos de encarar o ciclo da água.
A produção agro-ecológica e os jardins filtrantes devem inserir-se numa nova visão da complexidade sistémica.
Assim, as águas residuais que contêm fluxos de nutrientes, devem ficar sujeitas a processos de lagunagem para a reciclagem orgânica desses nutrientes, permitindo a obtenção de águas reutilizáveis. Essas águas reutilizáveis podem mesmo vir a tornarem-se águas potáveis.
Vamos descrever, duma forma sintética, o funcionamento dos processos de biofiltragem acoplados à produção agro-ecológica.
É importante organizar bacias para este processo de biodepuração.
Essas lagunagens, (funcionando de uma forma biodepurativa) podem permitir, graças a uma inclinação do terreno, um movimento da água por gravidade.
Podem-se usar micrófitas (algas) para a filtragem da água.
É sempre importante organizar 3 bacias, pois à decantação da primeira bacia, seguem-se outras formas mais eficazes de depuração.
As macrófitas são usadas com eficácia para a filtragem da água (caniços, junquilhos, íris, etc.)
Nestes casos procede-se a uma colheita dos vegetais, de tempos a tempos, para não haver uma infestação (a biomassa recolhida permite fertilizar a terra após feita uma compostagem).

31.1.07

Tibá - arquitecto Johan van Lengen


O artigo do Prof. Doutor Jacinto Rodrigues sobre o TIBÁ tem a extensão de 28 páginas. Coloco aqui alguns excertos... no entanto, o texto completo encontra-se disponível para download, na página do e-learning.

"(...)O autocarro parou na praceta da cidadezinha de Bom Jardim. Três quilómetros separam ainda a cidade da fazenda onde se encontra o TIBÁ – Centro de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitectura, fundado pelo arquitecto Johan van Lengen.
Tibá, na língua dos índios Tupi, quer dizer lugar onde muitas pessoas se encontram.
Johan van Lengen e o filho, Marc, estavam à minha espera. (...)

"Um centro onde fosse possível formar uma cultura ecológica orientada em especial para a arquitectura e urbanismo sustentável. Mas seria um centro aberto à multidisciplinaridade, concebendo o desenvolvimento social numa interligação simultânea com o autodesenvolvimento."

Desde longa data que Johan começara a desenvolver uma investigação sobre novas metodologias de educação tendo como base a razão e a intuição, a arte e ciência. Durante os últimos anos Van Lengen abordara essas questões da nova pedagogia tendo como base a articulação sistémica entre o hemisfério esquerdo e o hemisfério direito.
O trabalho com psicólogos abrira-lhe novas perspectivas sobre o que denomina de inter-relação entre o estado Alfa e Beta, ou seja o aproveitamento das duas funções diferenciadas dos hemisférios cerebrais, através duma actuação que favoreça a integração das potencialidades globais do cérebro. Esta metodologia tem muito a ver com as mais recentes investigações da pedagogia e da neurociência, como as efectivadas, nomeadamente por Michel Fustier, Dominique Chalvin e António Damásio.

A vivência, e não apenas a erudição académica de Johan van Lengen, foram o ponto de partida para a criação dessa metodologia. É essa vivência, feita de aparentes contradições, de multiplicidade de culturas e línguas, que lhe forneceu a base dessa utensilagem pedagógica.
Nascido em Amesterdão em 1930, conheceu na infância e adolescência o drama da 2ª Guerra Mundial. A ocupação nazi e as dificuldades sociais da guerra preencheram as recordações do seu diário.
Os cadernos que conserva desses anos de meninice revelam já uma sensibilidade excepcional para o desenho.

Graças a um resistente anti-nazi aprendeu judo, desde a adolescência, tornando-se um especialista. Começou a dar aulas de artes marciais muito cedo. Essa formação no judo não foi uma mera aprendizagem técnica. Foi uma arte que lhe permitiu desenvolver um controlo corporal liberto de medos e angústias.
Procurando viver o presente, o agora, abriu-se à filosofia Zen com a leitura de Eugéne Herrigel e, tal como Trevor Leggett, conquistador de altas graduações no judo, aprendeu que “o pintor só saberá desenhar um corvo empoleirado num bambu, quando conseguir, à força de os observar e interiorizar, tornar-se ele próprio o corvo e o bambu agitado pelo vento, face ao vazio. Por isso, aprender a observar faz com que, com algumas pinceladas e num só movimento, a arte surja.”
É esta filosofia do estar presente no agora, que lhe permite o despertar.
A Holanda tornara-se um espaço exíguo para o seu imaginário aberto.
Nos princípios dos anos 50 foi para o Equador. Viveu atribuladas aventuras na floresta onde contraiu a icterícia. Restabelecido, graças a uma dieta de bananas, conseguiu um lugar no escritório do arquitecto Guillermo Cubillo, onde recebeu as primeiras noções de projecto. Interessa-se em especial pela construção, tendo acompanhado as actividades nos estaleiros, adquirindo uma sólida formação técnica. Naqueles anos, a orientação da arquitectura do pós-guerra pautava-se por uma estética moderna. Corbusier divulgava as novas regras da arquitectura.
Johan van Lengen parte para o Canadá para estudar na Universidade de Arquitectura de Toronto. Faz o curso com facilidade pois já tinha uma bagagem técnica apreciável, adquirida no trabalho que fez nos estaleiros e com o arquitecto Cubillo.
Do Canadá viaja para os Estados Unidos da América onde finaliza o diploma numa Universidade do Oregon, marcada pela escola da Bauhaus na versão americana de Gropius e Mies Van der Rohe.
Na arte era um apaixonado pela pintura abstracta de Mondrian. Ainda como aluno na universidade, traduzira do holandês uma obra desse pintor apresentando-a como um contributo para as provas do curso de arquitectura. Nesse período do início dos anos 60, as preocupações da arquitectura tecno-funcionalista dominam os seus projectos. Assim, em 1962 e 1963 trabalha na edificação de hospitais na Califórnia, preocupando-se especialmente com a ergonomia e a boa funcionalidade dos espaços. Isso reforça a sua formação racionalista que se consolidara com o interesse pelos trabalhos de Cristopher Alexander, que desde 1965, em Berkeley, desenvolvia as relações entre a matemática e as construções arquitectónicas. Os trabalhos de Cristopher Alexander prosseguiam as preocupações que Wittgenstein manifestara já nos anos 20. Johan van Lengen vai trabalhar em cooperação com o matemático na empresa de Arthur D. Little. Investiga também a utilização da informática na arquitectura e no urbanismo. Estabelece “matrizes” que permitem uma racionalização de vectores nas opções técnico-construtivas. Procura estabelecer diagramas de afinidades com o fim de projectar com maior funcionalidade.
Entretanto vai desenvolver na prática arquitectónica uma série de projectos e trabalhos que vão de supermercados ao planeamento de centros urbanos, universidades e conjuntos habitacionais nos E.U.A.

Um outra etapa está prestes a surgir. Em S. Francisco conhece artistas, psicólogos e homens de letras com perspectivas de inovação. Conhece Jacques Overhoff, também ele holandês residente nos E.U.A. e que faz experiências na escultura, mobilizando cidadãos para uma nova estética na cidade.
Em 1962 casa com Rose, uma pintora brasileira que conhecera no Rio de Janeiro. A pintura de Rose é uma pintura onírica e cujo lirismo reflecte muito a paisagem da América Latina e sobretudo a exuberância colorida do México, onde depois residem.
Nesses anos apaixona-se pela arquitectura brasileira, nomeadamente pelos trabalhos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, que espelham uma maior sensibilidade plástica mesmo se ainda posicionados no movimento moderno.
As relações com o Brasil estabelecem-se cada vez mais frequentemente com as múltiplas viagens que realiza com Rose. Os problemas da arte, da pintura, e do desenho tornam-se também uma motivação pessoal na sua própria actividade criativa. Johan faz inúmeros desenhos e esculturas.
Além dessas actividades artísticas interessa-se pelas questões antropológicas. Chegou mesmo a frequentar um mestrado de antropologia na Universidade de Campinas, no Brasil, numa das suas estadias, que vai fazer cada vez mais frequentemente, entre Califórnia, México e Brasil.
No Rio de Janeiro, trabalha no escritório do arquitecto de reconhecida qualidade, Sérgio Bernardes, nomeadamente no planeamento da Universidade Católica de Curitiba. Esta sensibilidade moderna, lúdica e criativa da arquitectura brasileira permite-lhe articular a anterior formação técnica e construtiva com a nova abertura estética, mais plástica, da arquitectura brasileira.
Johan recorda o lado “bon vivant” de Sergio Bernardes e a postura sensível com que olha e trabalha com a arquitectura. Explica como diante dos organigramas informativos, o arquitecto Sérgio Bernardes imprimia traços a lápis de cor sobre o papel manteiga com que sobrepunha a planta topográfica devidamente sinalizada com os dados objectivos. Os traços coloridos do desenho sobreposto eram propostas com vida. E assim a arquitectura de Sérgio Bernardes ganhava uma outra dimensão artística sem deixar de manter uma informação quantitativa.
Johan conta assim como colaborou e aprendeu com este arquitecto brasileiro.
Por outro lado, as questões sociais vão-se impondo constantemente. E assim, uma maior flexibilidade intervém nos seus próprios projectos.
A nova aprendizagem da arquitectura e a nova experiência social vão-se consolidar numa espécie de segunda vida profissional que se impõe progressivamente.
Em 1977, quando se torna conselheiro da ONU para as questões do habitat e do urbanismo, os problemas da forma na arquitectura vão sofrer uma reviravolta substancial. Essa sua actividade como conselheiro exerce-se primeiramente no México.
A primeira fase profissional que tinha sido marcada pelo tecno-funcionalismo e o racionalismo da arquitectura moderna, centrava-se essencialmente na informação quantitativa. Nesta segunda etapa, estas referências fornecem dados para uma maior implicação artística no projecto. Acentua-se assim a influência da expressão artística da sua mulher, a cultura popular mexicana e a dos índios da Amazónia, que constituem os novos referentes para a problemática da sua arquitectura, cada vez mais marcada pelas preocupações ecológicas.
Um novo paradigma histórico emergente vai produzir as metamorfoses nas ideias, na tecnologia e na cultura de Johan van Lengen.
Ao instalar-se em Tepoztlan, a alguns quilómetros de Cuernavaca onde vivia o filósofo Ivan Illich que conheceu pessoalmente e de quem admirava a sua obra, nova reformulação se produziu nas suas concepções sobre energia e sobre desenvolvimento social. Acentuam-se as suas críticas ao paradigma dominante, abandonando as posturas eurocentricas, põe em causa o progresso linear e vai assumindo valores da interculturalidade e transculturalidade, sem pretensões de superioridades exclusivas. O convívio com a diferença abre-lhe novos horizontes.
Entretanto, aprofunda também o Budismo Zen, no contacto com os monges budistas que visita em Honolulu. E, quando vive na Califórnia, desloca-se a Oregon para visitar a comunidade do célebre guru indiano Bhagwan Shree Rasneesh, e é convidado a projectar algumas construções para o “rancho” onde vivem os principais membros desse grupo.
Ao visitar esta utopia que desponta no deserto, recorda a qualidade de alguns terapeutas que aí trabalhavam. Porém, rapidamente se dá conta dos impasses e desvirtuações desse grupo. Ficará contudo marcado pelas práticas meditativas e terapêuticas da escola de Bhagwan.
Viaja várias vezes ao oriente colaborando em congressos de arquitectura sustentável. Participa, num congresso de Nova Deli sobre questões sísmicas. Expõe algumas soluções para prevenir os estragos provocados pelos tremores de terra. Propõe a montagem dum pórtico de betão armado que consolide os edifícios e estabeleça simultaneamente um refúgio sólido para recolhimento das pessoas durante os sismos, que deveriam ser previamente assinalados graças a um sistema sonoro, sensível às primeiras manifestações sísmicas.
Este pórtico-refúgio deveria, segundo Johan van Lengen, ser obrigatoriamente exigido nas construções públicas nos países susceptíveis de tremores de terra.
Como Johan nos contou, estas suas viagens ao Oriente constituíam não apenas uma colaboração profissional mas resultavam também duma profunda atracção pela cultura espiritual do Oriente, em particular pelo budismo. Em algumas dessas conversas sobre as suas viagens ao Oriente, Johan relatou-me, comovido, as suas impressões numa das visitas à Índia: o sorriso de paz duma mulher pedinte, que encontrou em Benares, naquele estranho dia em que perpassava uma atmosfera de comunhão espiritual entre as pessoas. Morrera Indira Gandhi. Após a tragédia dos primeiros momentos, a multidão enfurecida, agitou-se tumultuosamente, procurando vingança. Mas a mulher do sorriso misterioso, a pobre pedinte de Madurai, continuava presente no seu espírito como uma espécie de êxtase que o deixara na maior perplexidade. No meio da confusão, no quase motim que agora se avolumava, ofereceram-lhe um farrapo de pano preto com o qual pôde manifestar a solidariedade pelo luto da Índia. E assim, Johan o ocidental, perdido na turba pôde salvar-se da fúria da multidão perturbada por aquele trágico acontecimento no sul da Índia.
Essas viagens ao Oriente levaram-no a santuários onde visitou Ashrams e lugares santos.
De volta ao México, onde continuava a trabalhar como conselheiro dum programa do Governo da Holanda conheceu também um arquitecto e artista genial, o jesuíta Cláudio Favier Orendain. Era um arquitecto misterioso que estudara profundamente as antigas construções pré-colombianas e procurava ajudar as populações a prosseguirem com as tradicionais técnicas do adobe. Os rurais das aldeias de Tlayacalpan só ficaram verdadeiramente convencidos do valor das construções de adobe e da sua criação identitária quando viram que o europeu as adoptara. Cláudio Favier construíra a sua própria casa de adobe com formas próprias daquela região. Este facto foi, para Johan, uma verdadeira lição antropológica pois só o reconhecimento por estranhos à cultura autóctone e local, permite a auto-estima necessária pelo interesse desse património. Depois deste gesto assumido por um estrangeiro, a população autóctone percebeu o valor da sua própria cultura, que até ali desprezava por viver na ilusão de valores que se instalaram contra os seus próprios interesses. Johan van Lengen explicou-me porque é que também ele optara, na reconstrução do Tibá, pela reutilização das estruturas pertencentes ao engenho da rapadura de cana de açúcar. Empregara, nessa reconstrução, ecotecnologias simples que pudessem fazer do edifício uma experiência demonstrativa.
Assim, o Tibá não rejeita as tradições construtivas quando bem feitas e exprime, na sua própria edificação, as tecnologias que aí se pretendem ensinar.

(...)

Utilizando os “cascajes” Johan foi ampliando a ala poente para os ateliers de construção civil e os sanitários secos – os “basons”- que são propostos como tecnologia apropriada para as populações, constituem também as sanitas existentes no Tibá. Os tectos verdes que se ensinam a fazer são também generalizados na própria escola Tibá. E com os bambus que bamboleiam ao vento no interior da fazenda, construíram-se pontes e outras estruturas.

(...)

A horta biológica que alimenta a cantina, revela o tipo de agricultura biológica e aponta para uma alimentação saudável. O processo dessa agricultura é baseado nas experiências do professor brasileiro de agronomia, Víctor del Mazo, que estabeleceu uma metodologia (mazu-humus) que consiste na utilização de minhocas californianas (eisenia foctida) que, revolvendo o estrume colocado em pequenos reservatórios, vão produzindo um fertilizante natural muito eficaz.
Uma rápida visita pelo casario pôs-me em contacto com as várias estruturas da casa: a biblioteca, a sala de meditação, os ateliers e a cozinha com o alpendre caramachão onde se fazem as refeições.

(...)

É necessário referir ainda factores subtis que só agora a geobiologia parece estar interessada em estudar cientificamente. É o caso dos estudos da rede Hartmann e Curie que o Feng-Shui pressentia intuitivamente e que também os antigos construtores no Ocidente levavam em conta na arte da construção da arquitectura sagrada”.

(...)

Esta metodologia, que já referimos, tem a ver com o trabalho profissional que exerceu ao longo de vários anos mas a que acrescenta uma pesquisa iniciada por Cristopher Alexander e que ele próprio desenvolveu com a ajuda de um matemático. A esta parte do seu trabalho chama de experiência em Beta. Trata-se de uma actividade necessária à investigação informativa e permite a segurança imprescindível para a etapa Alfa. Para esta etapa é imprescindível o período anterior pois a lógica investigativa estabelece nexos e informações que sistematizam metodologias e técnicas imprescindíveis no design, na arquitectura e no urbanismo.
O trabalho de Johan van Lengen baseia-se assim nos estudos recentes da neurociência. Os dois hemisférios cerebrais estão conectados por um grosso cabo de inúmeras fibras nervosas. Este dispositivo mediador faz a conexão entre cada um dos dois hemisférios diferenciados pelas suas funções:
a) O hemisfério esquerdo contempla os aspectos analíticos, privilegia a linguagem lógico-digital e expressa-se dum modo quantitativo e verbal. As ondas Beta hegemonizam essa zona cerebral;
b) O hemisfério direito contempla os aspectos globais, privilegia a intuição e a linguagem analógica e expressa-se dum modo qualitativo e gestual. As ondas Alfa hegemonizam essa zona cerebral;

Os estímulos do hemisfério esquerdo trazem sobretudo informações do exterior. Os estímulos do hemisfério direito expressam sobretudo motivações interiores, como os desejos, imagens e sonhos.
O curso de Johan van Lengen, a que ele deu o nome de Beta-Alfa é a organização duma metodologia pedagógica minuciosamente estudada através dum conjunto de exercícios que fortalecem ambos os hemisférios permitindo, simultaneamente a interacção sistémica dos mesmos. Trata-se de “Alfa+Betizar” harmonicamente as funções quotidianas a que o nosso cérebro está sujeito.

(...)

Falou desse personagem excepcional do cinema francês, Jacques Tati, que realizou filmes inolvidáveis como “Mon Oncle” e “Les vacances de Mr. Hulot”. Conheceu Jacques Tati e deu-se conta do sentido da sua obra que era o de fazer “despertar” o homem adormecido que está em nós ou o homem máquina que constantemente pretende impor-se à criatividade .

(...)

Através de cartazes explicitam-se problemas construtivos e suas soluções ecotecnológicas.
A sua actividade nesta divulgação pedagógica leva-o a fazer uma proposta de realização de um filme para o ensino de tecnologias apropriáveis. O filme ainda não foi realizado mas a proposta ganhou um prémio. Este filme teria o nome de “Jour de Fête” em homenagem, mais uma vez, ao realizador Jacques Tati e representaria de uma forma humorística em 16 cenas os processos simples de auto-construção realizada por um grupo de jovens.
Todas estas actividades culminaram na edição de um livroManual do Arquitecto Descalço” que já havia sido anteriormente editado, no México, em língua castelhana.
Prepara-se neste momento uma edição em inglês.
(...)
No livro “Manual do Arquitecto Descalço” tecem-se considerações, duma forma extremamente simples, sobre os princípios fundamentais dum projecto.



29.1.07

geobiologia, entre outras coisas

Na tal segunda parte da aula em que tivemos connosco o Arquitecto Filipe Francisco, ele falou-nos em alguns dos conhecimentos e práticas dele relacionadas com geobiologia. Começando pelo conceito de gaiola de Faraday, que comprova que uma construção cuja estrutura em malha de ferro, cria campos neutros, aos campos electicos e electromagnéticos.(Uma pequena investigação que fiz após a aula, mostrou que se pode fazer a experiência envolvendo, por exemplo, um rádio, numa folha de papel de alumínio: em certas frequências, o rádio deixa de transmitir. O mesmo se passa com os telemóveis, e com outras radiações de que não nos apercebemos.) Este processo é utilizado nas salas de operações dos hospitais, para garantir que o correcto funcionamento dos aparelhos electrónicos não sofra interferências imprevisíveis. Para isso, contribui uma construção em betão armado, maciço, cuja densidade da malha metálica provoca o efeito descrito anteriormente. Normalemente esta estrutura está ligada através de umas varetas de cobre à terra. No nosso dia-a-dia, precisamos de zonas estáveis electromagnéticamente, mas não de zonas completamente neutras. Animais tais como os gatos, as abelhas e as formigas, gostam de zonas instáveis e fortes electromagneticamente. Por isso, não é muito aconselhável para um ser humano permanecer em locais onde estes animais se sintam bem. Estando à superfície da Terra, estamos sujeitos a dois tipos de radiações: as cósmicas (do sol, electromagnéticas e de outros planetas, por exemplo) e as telúricas (que vêm da terra). As construções que usam uma estrutura metálica em malha de ferro, ficam neutras relativamente a estas radiações. Caso se tenha que construir em betão, é preferível utilizar uma estrutura porticada. O sistema estrutural "em túnel", constituído apenas por betão e ferro, num circuito electromagneticamente fechado, foi proíbido em França, por se pensar que conduz à violência as pessoas que vivem em edifícios deste tipo. Existe mesmo um livro sobre as casas que fazem cancro, editado em França. Bem, este tema estendeu-se por uma conversa muito interessante, gostava que me ajudassem a reconstituí-la para que quem estiver interessado neste assunto possa aqui ter uma pequena introdução....

25.1.07

Comemoração Solar no Canadá - Junho 2007




Vão-se comemorar no mês de Junho, no Canadá, as invenções solares do padre Himalaya.O programa pormenorizado pode ser consultado em http://portaouais.tripod.com/id6.html This conference will be in French, English and Portuguese.
The Father Himalaya Project is a fascinating Coference, Film, Exposition, Dinner and Dance around the theme of the Sun and the Environment. It will be a Night of Arts, with local Portuguese Canadian artist showing off their paintings, photography, crafts, books, poetry and music.

It will be a night where we show our generosity to the Cancer Society, The Portugues Speaking Students Association of Ottawa University, and Les Enfants de Espoir de Hull.

Join us for an informative conference with Professor Jacinto Rodrigues, the author of "The Solar Conspiracy of Father Himalaya;" also with Film Director Jorge Antonio for the showing of "The Wonderful Story of Father Himalaya," and discover how a Portuguese catholic priest became the pioneer and the father of solar science.
Musacademia, in colaboration with FC Unidos and Casa will be presenting the Father Himalaya Project on the 2nd of June at Maison du Citoyen in Hull, rue Laurier.
Program Salle de Fette: 11am to 11pm

– Exposition on Father Himalaya and Environmental Technologies
– Exposition of ELCRO the Portuguese Business of the Region
– Exposition of Solar Energy and Renewable Energies Enterprises
– Exposition of our Sponsors
– Exposition of whom we sponsor: Cancer Society, Les Enfants de Espoir, Portuguese Speaking Students Association of Ottawa University

Program at the Agora:
- 5:30pm, Cocktail Reception for the Father Himalaya Project
- 6:30pm, Dinner by Lolachers Catering
- 8pm, Conference by the amazing researcher Jacinto Rodrigues from the University of Porto, Portugal, author of “The Solar Conspiracy of Father Himalaya”
- 9pm, Movie-Documentary “The Amazing Story of Father Himalaya” by film director Jorge Antonio from Portugal
- Other guests speakers still to be announced
- 10:15pm to 2am, Entertainment and dance

The conference will have an extension for workshops on the 3rd of June at Centre Portugais Les Amies Unis 42 Rue Hanson from 1pm to 6pm. The program will be posted soon... Here are some of the ideas: mini solar car race, children's solar furnace expo and contest, environmental short story contest.
Want to participate, speak at our conference, take advantage of a free table on the Exposition site, or donnate? Gives us your information.

First name:
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Address 1:
City:
Province:
Postal code:
Phone:
Please contact me regarding:
Tickets for Cocktail/Dinner/Conference/Film/ExpositionSpeakerExposeBecoming a Sponsor

Here is a link to greater details about the Project Father Himalaya:
Padre Antonio Gomes Himalaya
Search:
The Web
Tripod

Palestra na Universidade Agostinho Neto - Desenvolvimento Ecologicamente Sustentável

O Professor Jacinto Rodrigues foi convidado pela Universidade Agostinho Neto para realizar algumas conferências em Luanda. Na Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto fez uma conferência sobre A Arquitectura e o Desenvolvimento Ecologicamente Sustentável.Aí constatou também que estava em vias de legalização a Associação "KWATerra, que tem como finalidade a educação e o desenvolvimento e integração sociais e vem dar corpo institucional a uma obra social já começada com a colaboração do arquitecto Maurício Ganduglia.Os seus objectivos:- A sensibilização para os sistemas e valores da construção tradicional,- A formação integral das pessoas intervenientes nos processos de construção- O respeito pelo meio ambinte e espaço urbano,- A planificação construtiva urbana e territorial e- A comunicação e difusão de técnicas, actores e projectosTrata-se de uma organização não governamental de direito angolano, sem fins lucrativos.A sua actividade de aproveitamento de técnicas de construção com materiais locais e o recurso ao BTC (Blocos de Terra Compactada) tem já cerca de 10 anos com obras nas seguintes localidades angolanas:- Gabela (1ª experiência), Uige, Luanda, Benguela, Dondo, Huambo, Lwena e Menongue.Desta associação, ora formada, fazem parte técnicos, artesãos, artistas plásticos, educadores, engenheiros e arquitectos, entre outros que se interessem pela integração social, educação, construção ecológica e pelas questões ambientais". Jacinto Rodrigues participou também no IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro em Ciências Sociais, em Luanda. Aí, no quadro do painel que orientou, criou-se um blog: http://ecologiaambiente.blogspot.com/ - Esteira do Ambiente. Trata-se de uma plataforma entre pessoas sensíveis às questões ecológicas e interessadas numa perspectiva de desenvolvimento ecologicamente sustentável. Nesse blog encontram-se algumas propostas para a luta contra a fome, epidemias e pobreza.

Filme Conspiração Solar do Padre Himalaya no site Ecoline

O filme "A Utopia do padre Himalaya" realizado por Jorge António e produzido pela Lx Filmes, baseado no livro do Professor Jacinto Rodrigues "A Conspiração Solar do Padre Himalaya", Ed. Árvore, Porto, 1999 e que foi objecto de trabalho nas primeiras aulas de ecologia urbana de 2006-2007, está agora disponível ao público no interessantíssimo site sobre ecologia: http://ecoline.ics.ul.pt/ organizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Acaba também de ser criado, em França, um blog sobre o Padre Himalaya cujo endereço é: http://padrehimalaya.podemus.com/index.php Também sobre o Padre Himalaya e sobre o desenvolvimento ecologicamente sustentável, o Professor Jacinto Rodrigues foi entrevistado pela tv francesa: Pour information: Site internet : www.66tv.fr Rubrique...Développement Durable Le professeur d'Université de Porto, Jacinto Rodrigues interviewé ( 6mn et 5 mn ) par Jacki Solé, lors de la fète du soleil et de l'association du 11 juin 2006 sur le site des vestiges du four solaire du "Padre Himalaya".